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Pensava que a maior dificuldade seria convencer Narcisa a espera-me enquanto realizava minha aventura geográfica pela América Latina. Foi aí que descobri outros problemas a serem solucionados. Iria ficar provavelmente um ano viajando e de certa maneira minha vida em Vairão seria congelada no tempo, algo nada fácil nos dias de hoje, onde o tempo é muitas vezes o maior inimigo, e não o amigo compreensível que nos espera.

Então comecei a me preocupar com a minha vida em Portugal. O que fazer com ela? Como deixá-la de lado enquanto conheço uma nova cultura, um novo continente e, provavelmente, um novo idioma? Aos poucos, a preocupação com Narcisa foi ficando pequena perto do que deveria organizar antes de minha partida. Na verdade, antes de abril, pois decidira partir neste mês, aproveitando o clima ameno que começava a soprar em Portugal e no Brasil, quando começaria o outono.

A primeira coisa a fazer foi organizar todos os meus pertences e, dentre eles, o que levaria comigo, o que ficaria guardado e o que seria doado. Afinal, por mais que eu pensasse em voltar, não tinha ao certo o meu destino traçado. Estava traçado, mas com traços facilmente modificáveis se o futuro do outro lado do oceano me surpreendesse. A vida e Portugal já não estava como antes. A crise chegara para modificar as expectativas de vida, profissionais e econômicas. Ninguém sabia ao certo o que esperava na vida. Então, pensei: “Pois, o que me segura nessa terra é o meu amor. Se no Brasil as coisas forem melhores levo Narcisa comigo. Venho buscá-la”.

Minha primeira decisão era o que fazer com meus livros. Papel tem um peso exagerado, e eu tinha uma coleção literária em minha casa. Era como uma biblioteca particular, composta por livros lidos, parcialmente lidos e presenteados, mas que pouco me interessavam. Ajudava a segurar os demais na estante, como um peso de livro, mas que nunca iria ler. Provavelmente não leria. Então decidi selecionar quais eram mais importantes para mim, quais levaria na viagem e quais seriam doados. Laura começou.

Para quem gosta de livros, tirar uma obra de sua prateleira é quase o mesmo que escolher entre um dedo ou outro. Trata-se de um apego ao papel que passa a ser um vício. “Adoro o cheiro do papel. Ele chega a me excitar”, disse certa vez um jornalista que conheci. Cheiro de livros não me excitavam. Muito pelo contrário. Minha finito alérgica disparava e nem podia ficar perto. Já alguns livros me deixavam excitado, como uma obra escrita coincidentemente por um jornalista brasileiro – Mario Prata -, chamado “Memórias de minhas putas virgens”. O autor fizera uma experiência no começo do século XXI, escrevendo-o em um blog, pouco a pouco, e depois o publicou em formato de livro. O blog foi apagado e quem quisesse ler a obra ou guarda-lá poderia comprar em livrarias virtuais ou físicas. Meu exemplar chegou via Amazon, no serviço de livros usados. O papel tinha um odor ruim, de velho, de umidade. Mas o texto era bom, e excitante.

Escolhi algumas obras para levar – três livros, que depois acabei digitalizado e arquivando em meu computador, junto aos arquivos de músicas. O restante doei para a biblioteca de Vairão, que certamente fizera melhor uso do que eu, um leitor apegado aos livros. Dizia um fotojornalistica de Barcelos – Jefferson Alves – que livro deve ser lido e compartilhado. “Livro na prateleira é um desrespeito ao autor”, justificava sua teoria. Pois os meus já não estavam mais nas prateleiras. Aliás, em breve não teria nem mesmo as prateleiras.

Destinar as roupas foi algo mais simples. Separei primeiro as peças que poderia usar no Brasil, de acordo com o clima do país. Sabia que o clima brasileiro era de calor, então descartei as roupas de inverno português. Minha imagem do Brasil era de sol, praia e calor o ano todo. Mal sabia que o inverno em algumas regiões é rigoroso. As roupas que considerava importante levar ainda selecionei novamente, desta vez de acordo com o espaço de minha mala (queria levar apenas uma mochila de 70 litros e uma pequena, para objetos pessoais e eletrônicos, nada mais). Aquele momento me fez lembrar de um casal e de brasileiro que conheci certa vez em Santiago de Compostela, na estação de comboios. Esperava o meu para Madri, pois queria conhecer a capital espanhola. Poderia ter ido ao Porto e de lá tomado um avião até Barajas, mas por medo decidi ir de ônibus até Santiago ele Compostela e de lá seguir por trem. Assim, poderia aproveitar para conhecer a cidade.

O casal de brasileiros havia acabado de completar o caminho de Santiago, desde Bordeaux até Santiago de Compostela. foram 60 dias caminhando pelas estradas secundárias do caminho, somente os dois – um pecuaristas de uma cidade chamada Araçatuba e sua esposa, uma professora. O marido, de quem não me lembro o nome, definiu de maneira bastante interessante o significado do caminho. “Dizem que percorrer o caminho de Santiago provoca mudanças pessoais. Sim, provoca mesmo. Além do desgaste físico – que nos faz dar mais valor às coisas – também aprendemos que só devemos carregas aquilo que realmente nos faz falta, ou seja, o que cabe na mochila”. Estava certo. Por essa razão, levaria em minha mochila somente o que caberia. Do contrário, iria gastar esforços desnecessariamente. Voltei a separar as roupas.

Porém, algo me angustiava ao pensar que deveria dar um fim: minha scooter. Por muitos anos desejei ter uma, ao ponto de sonhar com ela. O som me transportava para Paris, capital francesa que conheci há quase uma década após uma longa viagem – também de trem. Aquele som do motor frágil da scooter me transportava para a capital francesa. Então, após muitas economias resolvi comprar uma para mim. Escolhi uma de marca japonesa, amarela, pois diziam que da a cor mais segura para motocicletas pequenas.

Com minha scooter conheci lugares pitorescos. Junto aos amigos do Scooter Clube de Portugal, que organizava passeios nos fins de semana pela região. Me lembro que certa vez fui com minha scooter, com apenas 125 cilindradas, de Vairão até o Porto, e de lá seguimos em grupo composto por mais de 120 scooters – de todos os tamanhos e modelos – até Braga. Passamos por Aveiro e seguimos viagem. Foi um dia inteiro. Então, todos dormimos por lá e voltamos no dia seguinte.

Minha scooter era uma companheira. Carregava a Narcisa e a mim com conforto e economia. Não precisava mais que isso para transportar. Como tinha motorização limitada, tornava-se segura. Sobre ela eu transportava meu tempo. Parava-o, pra ser sincero. Colocava fones de ouvido e escutava os belos fados de Ana Moura ou o grupo galego Berogüetto (que possui canções maravilhosas) desde meu pequeno iPod. Só desligava o som quando queria escutar aquele motor “parisiense”.

Decidi guardar minha companheira amarelinha com Narcisa, que sabia muito bem o significado daquela máquina em minha vida. Na verdade, em. Nossa vidas, pois quando a comprei convidei Narcisa para o primeiro passeio. Inicialmente, ela sentia certo receio de algo acontecer comigo. Mas depois, ao ver que o motor era pouco potente e eu cuidadoso, chegou à conclusão de que os riscos seriam pequenos. Porém, ainda não contara a Narcisa sobre nada. Nem da scooter, nem da viagem. O que iria fazer?

Então me lembrei da conversa que tivemos com a família de brasileiros do Delphis Catamarã, no Porto. Cristina Salles nos contara que o momento mais difícil foi contar à família sobre a decisão do casal – de viajar pelo mundo os quatro dentro de um barco, com uma canção em cada porto. Dizia ela: “Minha mãe é muito apegada aos filhos. Meu pai parece seco, durão, mas tem um coração enorme e também sentiria muito. Porém, precisava viver meu sonho. Era o meu momento, compartilhado com meu marido e meus filhos. Seria a nossa história”. Isso me deixou com algumas ideias, mas deveria organiza-las primeiro, para depois conversar com Narcisa. Afinal, a expectativa que tínhamos era de nos casar em breve. Esse breve seria mai diante, pois além de me ausentar iria utilizar minhas economias para a aventura. Porém, sentia que seria importante para nossas vidas. Seria importante para nosso futuro. Então respirei e fui visita-la.

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Minha scooter logo que chegou à família

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Delphis Catamarã, que mudou minha vida (cortesia Cristina Salles)

(Continua em breve)

Capítulos anteriores:
02 – Entre Vairão e São José dos Campos
01 – Um mochileiro português na América Latina

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