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Como disse anteriormente, ideia inicial era conhecer o Brasil. Aproveitaria para assistir algumas partidas do mundial de futebol, vendo minha seleção jogar. Futebol não é o meu esporte favorito, mas mundial é mundial, ainda mais depois que meu país chegou às semifinais, em 2006 e 2010. Mas isso era apenas um pretexto patriótico para viajar ao Brasil. A verdadeira razão era mesmo o desejo de conhecer o país, que outrora foi terra portuguesa.

Porém, durante os preparativos, decidi que deveria aproveitar a travessia marítima (ainda que aérea) e conhecer alguns países do continente, e o primeiro da lista foi a Argentina. Afinal, aquelas terras eram povoadas por um povo elegante, que se considerava europeu. Seria uma maneira de matar as saudades de meu continente, especialmente depois de passar uns dias em terras brasileiras, onde – dizia a imprensa internacional – a bagunça era generalizada. Comecei, então, a pensar nas cidades que me interessavam, e a primeira delas – obviamente – era Buenos Aires. Mas somente essa?

Então me lembrei de um artigo que encontrei na internet sobre o filme Diários de Motocicleta, dirigido pelo brasileiro Walter Salles, de quem sou um grande admirador. O artigo era de caráter científico, mas apresentava uma discussão interessante, mesclando ficção e realidade na obra, especialmente na hora de tratar de entender as mensagens populares dentro da narrativa. E o primeiro momento do artigo (que segue o ritmo do filme) foi em Buenos Aires. Mas também surgiram na pesquisa algumas outras cidades, como Córdoba – sede de uma interessante universidade a se conhecer – e Rosario – terra do jogador Leonel Messi, do Barcelona, e arquirrival de meu conterrâneo Cristiano Ronaldo. Pronto: já tinha dois outros destinos a conhecer na Argentina, além de Alta Gracia, cidade onde cresceu Ernesto Guevara, o Che.

Comecei a traçar a programação da viagem. Sairia de Porto num sábado em um voo de Madri a São Paulo, capital econômica do Brasil. De lá, seguiria a São José dos Campos, onde ficaria por uma semana para conhecer a região. Em seguida, subiria uma serra – chamada Serra da Mantiqueira – para conhecer Campos do Jordão, e passar uns dias experimentando os sabores daquele belo ponto turístico (pude ver umas fotos na internet e me pareceu um belo lugar). Campos do Jordão, segundo informações de várias páginas na internet, é uma cidade considerada a Suíça brasileira. Seria um resgate ao meu passado, quando fui com Narcisa a Genebra. Ai, Narcisa, farás falta.

Era um fim de semana de inverno, e a neve tomava conta da paisagem. Tínhamos reservado um chalé naquela cidade, em um local longe do centro da cidade, e passamos dois dias, contando com a chegada no sábado cedinho. Passeávamos pelo frio local e nos aquecíamos com chocolates quentes vendidos em todas as esquinas. No final da noite do sábado, o prato escolhido foi um apetitoso foundie, exatamente como apareciam em filmes de James Bond (eu sempre fui apreciador daquela história, talvez pela aventura que podia “viver” pelo mundo). Entretanto, nossa volta foi atrasada por uma forte nevasca que caiu na tarde de domingo, impedindo que os comboios viajassem com segurança. Então, passamos nossa segunda noite sentados na estação de trem, enquanto esperávamos a liberação da viagem, que saiu na segunda-feira por volta das 11 horas da manhã.

Bom, retornando ao roteiro no Brasil, logo após uns dias por Campos do Jordão, com direito a uma parada numa cidadezinha no caminho para experimentar as delícias da colônia italiana na região (Quiririm era o nome do local que, diziam, oferecia gastronomia ítalo-brasileira em suas diversas cantinas pelo caminho), meu caminho era a praia. E nem o frio iria me impedir de conhecer as praias brasileiras, mas que Narcisa não soubesse de meu interesse.

Ainda que não estivesse no verão brasileiro, dizem que os moradores daquele país – sobretudo os moradores de São Paulo – seguem às praias debaixo de qualquer clima para fugir do caos da capital. Minha curiosidade era descobrir se, de fato, as raparigas brasileiras seguem às praias com vestimentas minúsculas, quase microscópicas, ou era uma propaganda das telenovelas para o turismo sexual no país. Obviamente, Narcisa não saberia de meu interesse, e nem receberia como lembrança do Brasil uma vestimenta daquelas – talvez uma comportada. Então, decidi que seguiria de Campos do Jordao para uma ilha, conhecida como Ilhabela. Deveria ser muito bonita essa ilha.

Ilhabela é – também segundo a internet – a maior ilha marítima do Brasil, e a mais bela, segundo a página da Wikipedia. Conhecida como a capital da vela, Ilhabela recebeu outros nomes outrora, como Vila Bela da Princesa, em homenagem à irmã de D. Pedro I. Oras, uma ilha que recebe o nome da princesa a de ser bonita mesmo. Então era esse o meu terceiro destino por terras brasileiras.

Mas eu queria conhecer outras regiões do país, como a histórica cidade de Ouro Preto, conhecida como a cidade do ciclo do ouro nos tempos áureos da coroa portuguesa. De lá saíram os famosos santos do pau oco, recheados de ouro das gerais, diretamente para Lisboa. Ouro que foi, inclusive, roubado pelas tropas napoleônicas, ocasião em que D. João VI fugiu para o Brasil com toda a família real, numa viagem considerada a epopeia da coroa portuguesa. No caminho, talvez outros passeios, como a cidade de Belo Horizonte, onde pousaria o avião em que eu viajaria para aquela região.

Mas o que eu deveria conhecer além disso? Ainda estava a procurar. Um amigo de meu pai, o professor Fernando Ramos – catedrático da Universidade de Aveiro – me disse que um passeio impressionante seria a cidade de Aracaju, onde tinha o hábito de viajar a trabalho. Disse ele que por lá eu experimentaria uma praia diferente (com trajes de banho também diferentes) e uma gastronomia especialmente presente naquela região do nordeste do Brasil. Oras, minha cidade ficava no nordeste de Portugal, e essa coincidência seria interessante. Foi assim que Aracaju entrou em meu roteiro de viagem. Iria diretamente de Ouro preto a Aracaju, e de lá seguiria a Buenos Aires. Decidira que os jogos da Seleção das Quinas seriam acompanhados pela televisão de onde eu estivesse, e que a economia com ingressos e viagens seria bem aproveitada conhecendo outros cantos da América do Sul.

Mas será que somente a Argentina passaria pelo meu roteiro? Então comecei a pensar que outras terras, como Chile, Paraguai, Peru, Equador e Colômbia deveriam entrar também no meu caminho. Sei que teria pouca dificuldade em me comunicar nesses países, pois aprendi o idioma espanhol em tempos de miúdo. Só teria que me esforçar para recuperar a fluência. Poderia até viajar num fim de semana às cidades fronteiriças de Portugal em companhia de minha amada Narcisa. Aproveitaríamos para passear. Mas a viagem seria de scooter, até para aproveitar a companhia de minhas companheiras.

Então decidi que Santiago do Chile seria meu destino logo após Córdoba, na Argentina. A única coisa que me amedrontava na capital chilena era a ocorrência sísmica. Uma chilena radicada na Colômbia escreveu na internet certa vez que o Chile compete com o Japão para ver quem tem os piores terremotos. Na primeira vez em que li essa postagem, pensei que a tal Carolina Campalans fosse uma louca, mas percebi, nos terremotos sequentes, que ela estava certa. Parece que Chile dança salsa desde o solo até os Andes. Isso me assustava mais que a travessia oceânica dentro de um avião da Iberia. Porém, conhecer a capital chilena e experimentar a sua bebida tradicional – o pisco – eram meu incentivo. Só precisaria hospedar-me em algum hostel que nunca tivesse desmoronado por causa de um terremoto. Assim teria a certeza de que sua estrutura era preparada para os tremores daquela região. Então, ao consultar as opções de hospedagem no Hostel bookers, descobri que existia um bairro na cidade chamado Brasil. Pronto: era esse o meu endereço nas duas semanas que ficaria em Santiago, com passeios a Valparaiso e, quem sabe, uma viagem a San Pedro de Atacama, no topo dos Andes do Chile.

De Santiago, meu próximo destino seria o Peru. Mas o que eu deveria conhecer naquele país? Bom, Lima era uma obrigação, tanto pelas belezas históricas como pela gastronomia fusion que transforma a capital peruana em destaque mundial. Mas além de Lima eu tinha um impasse: Machu Picchu – Cuzco ou Piúra? Na verdade, o que me encantava era a ideia de ir à cidade perdida dos Incas, inclusive após assistir ao Diários de Motocicleta. Porém, me preocupava o clima na época, intensamente chuvoso, além do custo da região. Por isso, Piúra me interessava. Poderia conhecer a cidade viajando pela costa em um autocarro considerado bastante seguro e confortável – com direito a serviço de bordo e filme no ecrã. De lá, poderia visitar a pequena Catacaos, freguesia conhecida pelo artesanato em ouro e prata. Além disso, ficaria próximo do sul do Equador, meu próximo destino.

Falando em Equador, dizem que aquele país é bastante interessante. Divisa com o Peru, coleciona em sua história diversas guerras com seu vizinho do sul, além de outras disputas com o vizinho no norte – Colômbia. Apesar de ser um país livre, a economia é apoiada no dólar, moeda corrente. Por fim, em sua capital passa a linha imaginaria da linha do Equador, que divide a Terra ao meio – hemisfério sul e hemisfério norte. Deveria conhecer esse país, ao menos duas ou três cidades. Na lista de pontos a conhecer, Guaiaquil, Loja, VIlcabamba e Quito preenchiam meus dias durante duas semanas no país. Segundo comentários da equatoriana Catalina Mier, em sua conta no Twitter, conhecer o Equador e deixar de visitar Loja- VIlcabamba seria um sacrilégio. Então, decidi seguir seus conselhos, e coloquei as duas cidades ao sul do Equador em meu roteiro. Mas em seguida, novo destino latino-americano.

A próxima parada programada na agenda seria a Colômbia, apesar do temor que tomava conta de mim. Afinal, a imprensa mundial diz que a Colômbia é um país muito perigoso, repleto de atentados e narcotraficantes sequestrando pessoas inocentes para financiar a guerrilha no país. A disputa entre guerrilha e governo já dura mais de meia década. Mesmo assim, deveria conhecer a região, nem que fosse um passeio limitado a duas ou três cidades, entre elas Bogotá, a terceira capital mais alta do mundo, perdendo apenas para La Paz e Quito (essa eu também conheceria semanas antes). Mas, além de Bogotá, para onde eu deveria ir? Comecei a procurar informações sobre a região e encontrei um blog de um brasileiro que morou com sua família por dois anos naquele país. Encontrei informações interessantes – sobre o que fazer e o que não fazer por lá – e decidi que meus caminhos seriam limitados a três cidades: Bogotá, Villa de Leyva e Barranquilla. A última cidade estava situada ao norte do país, e de lá saiam voos diretos a Miami, Cidade do Panamá e, de lá, poderia voltar à Europa. Entretanto, a proximidade de onde eu estava com o México e os Estados Unidos começaram a me dar novas ideias para a minha aventura. Mas será que eu aguentaria passar mais tempo longe de minha amada Narcisa? Achei melhor conversar com ela sobre isso, com muito cuidado para não perdê-la.

 

(Continua em breve)

Capítulos anteriores:
03 – Preparativos em Vairão
02 – Entre Vairão e São José dos Campos
01 – Um mochileiro português na América Latina

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