Escrevo esse post olhando pela janela do voo entre Curitiba e São Paulo, no retorno para casa depois de duas honrosas bancas de mestrado no programa da Universidade Estadual de Ponta Grossa – UEPG. As duas primeiras do programa, por sinal. Escrevo escutando um som sensacional de uma cantora espanhola, a Eva Amaral. Olho pela janela e vejo um Brasil maravilhoso, com muito verde, montanhas, nuvens, um sol especial. A minha amada pátria.

Mas apesar de tanta coisa boa na bagagem, pouco tenho a comemorar. Escuto a letra da música e penso nas pessoas que estão lá embaixo dedicando seu tempo a panelaços e compartilhamento de piadas odiosas, rancorosas na internet. Pessoas que pensam estarem vivendo um momento revolucionário. Engano. O que fazem é apenas uma divisão entre os que sempre tiveram e os que buscam uma oportunidade de ter. Como disse o Juca Kifouri em seu blog, “é o incômodo ao ver pessoas diferentes nos lugares até então proibidos para eles”. É ruim, para uma boa parcela de brasileiros, ver o mecânico andando em um carro zero quilômetro dele (e não de algum cliente), encontrar a empregada doméstica no aeroporto embarcando ao nordeste para encontrar os familiares que não eram visitados há décadas, ou mesmo saber que na mesma universidade que o próprio filho estuda medicina, o filho do pedreiro (sim, aquele que está ganhando uma grana para construir aquela casa avaliada pelo dobro do preço real um ano atrás, em meio a uma bolha tupiniquim) também está lá, depois de ingressar graças às cotas (se essa universidade paulista ainda é pública) ou ao PROUNI (se é uma universidade privada). “Como pode isso? Esse bolsa-família é uma merda”, deve pensar o percussionista de panela Teflon. Não é.

Me machuca pensar que esses cidadãos não conseguem entender que para crescer solidamente o outro deve crescer. Todos devem crescer, ou ao menos terem a oportunidade de crescimento. Daí a aproveitar é outra história. Mas é complicado. Daí, essa sociedade, que vive um momento de revolução midiática (onde todos somos seres meio, como diz o pesquisador Dan Gillmor), deixa de mandar votos para o BBB e resolve compartilhar hashtag com #ForaDilma, #Panelaco, etc. Deixa de mandar mensagens bonitas pelo WhatsApp aos amigos e parentes para deflagrar o ódio xenófobo, propondo a divisão do Brasil porque a Dilma foi eleita. Oras, a Dilminha foi eleita por causa dos mineiros, e não pelos nordestinos. Se não tivesse Minas Gerais, ou se o Aecio tivesse sido governador do Amapá, o cara teria sido eleito no ano passado. Mas fica mais barato culpar quem ganha bolsa família (mentira, pois São Paulo – que elegeu o pateta do Alckmin no primeiro turno, com a torneira seca e o metrô deflagrando um cartel decano – concentra a maior parcela do Bolsa Família).

Voltando a olhar pela janela, penso que o Brasil que eu tinha em minha lembrança não era esse. Sim, era um país diverso em opiniões, mas sem esse ódio. Não foi esse Brasil que eu tatuei em minha perna, mesclado com a América Latina. Tampouco foi esse Brasil o representado pelas cores verde e amarelo que carrego em minhas costas. O Brasil que eu carregava na lembrança era aquele dos caras-pintadas. Era aquele das Diretas Já. O MEU Brasil era aquele que teve uma juventude reprimida, mas corajosa (e guerrilheira) durante a Ditadura Militar. Esse Brasil não estava aqui quando desci do avião vindo de Bogotá, no dia 13 de setembro de 2013. Também não fui esperado pelas mesmas energias que tanto tinha saudades enquanto estava no topo dos Andes. Isso dói.

Volto a olhar a janela. Está começando a escurecer (mesmo voando numa altitude de cruzeiro). Daí me lembro da manhã de hoje. Aquele dono de hotel asqueroso dizendo que “corrupção, quando é pequena, ele acha normal. Quando a corrupção é igual à do PT ele não aceita”, lembrando do tempo em que era secretário de Transporte de Ponta Grossa – PR. O mesmo asqueroso, que toda hora fala de sua excelente situação financeira, diz que “agora vamos tirar aqueles desgraçados da Dilma e do Lula para colocar o Aécio, o melhor cidadão brasileiro, no poder”. Tudo bem, que a Dilma e o Lula são desgracados eu até concordo (apesar desses dois serem os responsáveis pelo embarque de tantas pessoas pobres nos aviões, como eu vi minutos atrás, em Curitiba – os passageiros do PT). Mas O Aecio que ele fala é o mesmo que eu conheço dos noticiários? É aquele que recebeu uma votação ínfima em Minas Gerais (o único Estado que realmente o conhece)? É aquele que, de tão bandido profissional, conseguiu fazer com que seu tesoureiro de campanha (o Anastasia) recebesse propina da Petrobras no turno PT de corrupção? Fico pensando que se o cara conseguiu faturar no período Lula/Dilma, imagina quanto ele e seu partido faturou no período FHC? Falando nisso, onde foram parar os dólares recebidos na primeira venda de ações da Petrobras (era FHC), da Embratel (era FHC), Vale do Rio Doce (era FHC), Embraer (era FHC), entre outras boladas? Será que rola uma operação Lava Jato de 1995 pra cá? Parece difícil. Ah, esse Aécio não é um brasileiro digno. E se é, prefiro ser expatriado.

Bom, diante disso, só posso amargar pelo erro de destino. Me resta o arrependimento pelo amor patriótico hoje não correspondido. Só me permito dizer que o Brasil onde eu nasci – e para onde queria voltar – era repleto de amor, de respeito, de esperança. Essa terra na qual fui parar é diferente, irreconhecível. É uma terra que prefere potencializar o caos econômico para construir uma opinião pública depressiva, suscetível a Impeachment (justificada pelo pateta do Ives Gandra) e panelaços (na Vila Madalena, pois na Zona Leste acho que somente uns coxinhas daquela região devem ter batido na frigideira Teflon). Daí só me resta pensar na música da Eva Amaral: “Siento que llegó nuestra hora. Esa es nuestra revolución”. Uma revolução diferente da pensada pelos coxinhas da frigideira Teflon. Outra, pensada por mim e pela minha metade boa, onde a coragem pela mudança pode imperar os atos. Paz e amor, por favor.

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Essa imagem não é minha, mas representa perfeitamente o que vivemos. A propósito, ela está num texto do Juca Kfouri que é, seguramente o melhor texto que eu li nos dois últimos anos. http://blogdojuca.uol.com.br/2015/03/o-panelaco-da-barriga-cheia-e-do-odio/

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